quarta-feira, 8 de julho de 2015

Lacinho branco com flores pretas


É engraçado como uma simples sopa pode marcar a vida de uma criança. A sopa de framboesa era uma das opções que apareciam no cardápio da primeira escola que Anita frequentou ao lado de dois irmãos e dois primos.

A escola era quase improvisada, na zona rural, com alunos de classes diferentes em uma mesma sala. Lá, Anita aprendeu as primeiras palavras e conheceu o lado bom de conviver com outras crianças.  A deliciosa merenda que, no caso, não passava de sopa de framboesa ou de outra sopa amarela, que ela nunca soube definir bem o sabor, era outro ponto que a encantava nesta nova fase da vida.

Do que aprendeu ali, Anita não lembra direito. Suas lembranças ficam paradas entre as caminhadas para ir à escola com os irmãos e os primos, as brincadeiras inocentes e as sopas. O tempo naquela escola foi curto. Sua família foi morar em outro bairro rural, não muito longe dali, mas suficiente para que ela mudasse de escola.

Ao chegar saltitante em sua nova turma vestida com a camiseta que usaria quase sempre, a saia curinga de seu guarda-roupa, isso para não dizer que era a única, e chinelos de dedo, ela já pode perceber que o convívio não seria dos melhores com os novos colegas.

Não que seus novos coleguinhas fossem ricos. Longe disso. Mas, na época, quem podia comprar um caderno com molas já se sentia o rei do espaço. Anita não estava entre eles.

O caderno brochura pequeno e o lápis preto tornaram-se símbolos desta fase na vida da menina. Ter que carregar e escrever naquele material que a escola tinha para os alunos carentes era o símbolo que representava a separação entre as crianças.

Anita estava no grupo daqueles que não tinham dinheiro para comprar canetinhas coloridas. O que levava para a escola era o suficiente para realizar as tarefas propostas e ela não via muito problema em usar o material doado. Era um presente.

Os cabelos de Anita eram longos e sua mãe gostava de fazer tranças para ela ir à escola. Na falta de algo decente pra prender o cabelo, a mãe usava uma fita de palha de milho. Foi uma alegria na sala de aula ter a coleguinha que usava palha no cabelo.

Anita sentiu, pela primeira vez, o peso das risadinhas dos outros alunos. Cabisbaixa, ela voltou para casa triste e com vontade de não voltar mais para a escola. Mas voltou.

Para sua surpresa, Anita ganhou um presente especialmente preparado para ela. Uma das colegas de classe lhe entregou, meio sem jeito, um lacinho feito de pano branco com flores pretas, que sua mãe tinha feito no dia anterior, após saber da história que acontecera na escola.


Aquele foi para Anita um dos dias mais felizes de sua vida. Talvez para a outra menina tenha sido apenas mais um gesto que se perdeu ao longo dos anos, no esquecimento. Anita, no entanto, jamais esqueceu esta pequena gentileza vinda de uma menina de sete anos, que conseguiu ver além, muito mais além do que as aparências mostravam. Ela viu o resultado que as piadas causavam no interior da colega e preferiu tomar uma atitude para amenizar a situação.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Complexo e traumas de um vira-lata

Não ter um lugar onde você se sinta realmente em casa ou completo. Talvez essa seja uma das principais angústias de quem ainda carrega o famoso complexo de vira-lata, que Nelson Rodrigues atribuiu ao brasileiro quando o assunto era a derrota da seleção na Copa do Mundo de 1950, mas acho que cabe em muitas áreas da vida, como nos relacionamentos, na hora de procurar emprego e até mesmo andar na rua ou frequentar alguns lugares.

Fonte: Jornal A Voz
"por 'complexo de vira-lata' entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo

O complexo descrito por Rodrigues é muito claro no brasileiro, ainda mais em tempos de crise. Logo se vê comentários de que quer mudar-se para o exterior e nunca mais voltar aqui. Mas, ele aparece também no cotidiano pequeno de pessoas que cresceram sem acesso a muitas coisas. Não em todos, claro. Há sempre aquela pessoa forte, que não carrega traumas do passado.

Eu, no entanto, não sou esta pessoa. Lembro-me das primeiras vezes que passei por um bairro mais chique da cidade onde estudei, com bolsa do PROUNI, e como eu me sentia fora do contexto e até com vergonha de pedir informações. Ali estava para fazer uma entrevista de emprego, mas como poderia me dar bem neste confronto em busca de uma colocação no mercado, se até na rua eu estava titubeante?

Às vezes penso se sou eu a única no mundo com o peso do viralatismo a me perturbar quase sempre. Minha incapacidade surge em vários momentos, até comentários podem me atingir a ponto de me deixar cabisbaixa por horas, e pensativa. 

Tem dias que penso que apenas quando e se eu conseguir um bom emprego eu serei vista por algumas pessoas de minha convivência como "alguém no mundo". Por hora, sou mais um projeto que não deu muito certo e que pode até estar influenciando ou atrapalhando a vida de conviventes próximos. 

Dá para saber que tudo isso não passa de um belo complexo de vira-latas? Dá. Mas saber disso não impede ninguém de sentir que seu lugar é no quintal e não à mesa, com os cães de raça.


segunda-feira, 9 de março de 2015

Rebeldia


Era uma garotinha que só pensava em agradar. Feinha de dar dó, com um cabelão desgrenhado que nunca fora cortado e usando saias longas, tudo para seguir as regras da mãe, ela só encontrava um mundo diferente nos livros e nos programas de rádio, que ouvia bem baixinho com o rádio praticamente grudado ao ouvido.
Histórias de uma vida que ia muito além daquele mundinho restrito em que vivia. Um dia, a mãe surpreendeu a menina ouvindo um programa de histórias no rádio. Irritada com a ousadia da menina, pegou o objeto da desobediência e quebrou em mil pedaços. O barulho do choque do rádio com o chão fez a menina acordar para a realidade. Com uma tesoura pouco afiada ela cortou a trança que prendia seu cabelo e se libertou de uma vida de regras estranhas. 

segunda-feira, 2 de março de 2015

Saudades de casa

Casa é uma coisa doida, porque nem sempre é aquela que é sua de verdade. 

A Arena Corinthians é a casa (maravilhosa) do grande e amado Corinthians, mas, às vezes, bate uma saudade da antiga casa, aquela onde mesmo inquilino, o torcedor corintiano super se sentia em casa, o Pacaembu – também casa corintiana em São Paulo.

Eu, por exemplo, sempre tive como casa a terra de meus pais, a casa de minha mãe, já que ainda não assinei papéis com ninguém e passei por várias repúblicas em minha vida de estudante.

Agora, já formada e desempregada, acabei voltando para casa, para a terra natal, onde surgiu uma oportunidade de trabalho. Em menos de 24 horas já bateu uma saudade de casa, de minha casa no estado de SP (estou em MG), da companhia, enfim, parece que minha casa mudou mesmo de lugar.

Ter oportunidades é sempre bom e o momento é ótimo para vivenciar a profissão, mas é tão ruim ficar longe da casa que se tornou minha nos últimos 2 anos, e também de minha segunda casa, a casa corintiana, onde a família fiel se reúne para empurrar o Timão para as vitórias.


Serão longos meses longe de meus amores, mas perto de minha família de sangue. Vai entender o coração da gente...