É
engraçado como uma simples sopa pode marcar a vida de uma criança. A sopa de
framboesa era uma das opções que apareciam no cardápio da primeira escola que
Anita frequentou ao lado de dois irmãos e dois primos.
Do
que aprendeu ali, Anita não lembra direito. Suas lembranças ficam paradas entre
as caminhadas para ir à escola com os irmãos e os primos, as brincadeiras
inocentes e as sopas. O tempo naquela escola foi curto. Sua família foi morar
em outro bairro rural, não muito longe dali, mas suficiente para que ela
mudasse de escola.
Ao
chegar saltitante em sua nova turma vestida com a camiseta que usaria quase
sempre, a saia curinga de seu guarda-roupa, isso para não dizer que era a
única, e chinelos de dedo, ela já pode perceber que o convívio não seria dos
melhores com os novos colegas.
Não
que seus novos coleguinhas fossem ricos. Longe disso. Mas, na época, quem podia
comprar um caderno com molas já se sentia o rei do espaço. Anita não estava
entre eles.
O
caderno brochura pequeno e o lápis preto tornaram-se símbolos desta fase na
vida da menina. Ter que carregar e escrever naquele material que a escola tinha
para os alunos carentes era o símbolo que representava a separação entre as
crianças.
Anita
estava no grupo daqueles que não tinham dinheiro para comprar canetinhas
coloridas. O que levava para a escola era o suficiente para realizar as tarefas
propostas e ela não via muito problema em usar o material doado. Era um
presente.
Os
cabelos de Anita eram longos e sua mãe gostava de fazer tranças para ela ir à
escola. Na falta de algo decente pra prender o cabelo, a mãe usava uma fita de
palha de milho. Foi uma alegria na sala de aula ter a coleguinha que usava
palha no cabelo.
Anita
sentiu, pela primeira vez, o peso das risadinhas dos outros alunos. Cabisbaixa,
ela voltou para casa triste e com vontade de não voltar mais para a escola. Mas
voltou.
Para
sua surpresa, Anita ganhou um presente especialmente preparado para ela. Uma
das colegas de classe lhe entregou, meio sem jeito, um lacinho feito de pano
branco com flores pretas, que sua mãe tinha feito no dia anterior, após saber
da história que acontecera na escola.
Aquele
foi para Anita um dos dias mais felizes de sua vida. Talvez para a outra menina
tenha sido apenas mais um gesto que se perdeu ao longo dos anos, no
esquecimento. Anita, no entanto, jamais esqueceu esta pequena gentileza vinda
de uma menina de sete anos, que conseguiu ver além, muito mais além do que as
aparências mostravam. Ela viu o resultado que as piadas causavam no interior da
colega e preferiu tomar uma atitude para amenizar a situação.