segunda-feira, 22 de junho de 2015

Complexo e traumas de um vira-lata

Não ter um lugar onde você se sinta realmente em casa ou completo. Talvez essa seja uma das principais angústias de quem ainda carrega o famoso complexo de vira-lata, que Nelson Rodrigues atribuiu ao brasileiro quando o assunto era a derrota da seleção na Copa do Mundo de 1950, mas acho que cabe em muitas áreas da vida, como nos relacionamentos, na hora de procurar emprego e até mesmo andar na rua ou frequentar alguns lugares.

Fonte: Jornal A Voz
"por 'complexo de vira-lata' entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo

O complexo descrito por Rodrigues é muito claro no brasileiro, ainda mais em tempos de crise. Logo se vê comentários de que quer mudar-se para o exterior e nunca mais voltar aqui. Mas, ele aparece também no cotidiano pequeno de pessoas que cresceram sem acesso a muitas coisas. Não em todos, claro. Há sempre aquela pessoa forte, que não carrega traumas do passado.

Eu, no entanto, não sou esta pessoa. Lembro-me das primeiras vezes que passei por um bairro mais chique da cidade onde estudei, com bolsa do PROUNI, e como eu me sentia fora do contexto e até com vergonha de pedir informações. Ali estava para fazer uma entrevista de emprego, mas como poderia me dar bem neste confronto em busca de uma colocação no mercado, se até na rua eu estava titubeante?

Às vezes penso se sou eu a única no mundo com o peso do viralatismo a me perturbar quase sempre. Minha incapacidade surge em vários momentos, até comentários podem me atingir a ponto de me deixar cabisbaixa por horas, e pensativa. 

Tem dias que penso que apenas quando e se eu conseguir um bom emprego eu serei vista por algumas pessoas de minha convivência como "alguém no mundo". Por hora, sou mais um projeto que não deu muito certo e que pode até estar influenciando ou atrapalhando a vida de conviventes próximos. 

Dá para saber que tudo isso não passa de um belo complexo de vira-latas? Dá. Mas saber disso não impede ninguém de sentir que seu lugar é no quintal e não à mesa, com os cães de raça.